Nas jornadas de agosto, construir uma unidade da esquerda na luta contra todos os governos: um chamado para a esquerda de Alagoas

Por Davi Fonseca e Lyllia Rojas 

As jornadas de junho recolocaram o Brasil no mapa das grandes mobilizações populares. A insatisfação subterrânea, calcada na precarização do trabalho, no arrocho salarial e no sucateamento dos serviços públicos, irrompeu a superfície na forma de manifestações massivas que rapidamente se espalharam por todo o país. E em poucas semanas, a aparência de estabilidade política, que parecia tão sólida, desmoronou. “O povo acordou” e no seu despertar aprendeu uma bela lição: é preciso lutar, é possível vencer.

Junho encontrou continuidade no 11 de julho, o dia nacional de greves, paralisações e mobilizações, convocado pelas Centrais Sindicais em todo o país. A classe trabalhadora organizada, com suas bandeiras históricas e seus métodos de luta, adentrou com força nas mobilizações. Milhares de trabalhadores em todo o país pararam a produção. Desde a década de 1980, não tínhamos um dia de paralisação tão marcante.

Junho e julho foi apenas o começo. Suas “vozes” expressaram por todo o país o descontentamento com todos os governos. Suas reivindicações, desde o passe livre até a luta por mais investimentos em saúde e educação, se chocam tanto com os governos municipais e estaduais como com o governo federal. Por isso, os governantes viram seus índices de aprovação despencarem. O Governo Dilma, por exemplo, caiu 30% nas pesquisas de opinião.

Alagoas não ficou de fora deste processo. No seu primeiro protesto, a Frente Pelo Passe Livre em Maceió mobilizou 500 pessoas. Na semana seguinte, outro ato, com 5 mil pessoas. No dia 20 de junho, histórico em todo o país, foram mais de 25 mil pessoas nas ruas de Maceió. Nada menos do que o maior ato de rua da história de Alagoas.

O 11 de julho em Alagoas também foi vitorioso. Houve fechamento de rodovias e paralisações em diversas categorias. Na Braskem, a maior indústria química do estado e onde há quase uma década não havia paralisação, os trabalhadores fecharam as portas. O Porto de Maceió também foi fechado, paralisando o dia de trabalho de portuários, metalúrgicos, petroleiros e trabalhadores da construção civil.

No último dia 01 de agosto, os trabalhadores sem-teto, que ocupavam o terreno da Santa Lúcia, juntamente com a Frente pelo Passe Livre em Maceió fizeram um belo ato de ocupação na Câmara de Vereadores. Exigiram Passe Livre estudantil, redução das passagens e uma solução para moradia dos trabalhadores sem-teto. Por algumas horas, a Câmara foi feita “Casa do Povo”. O agosto de luta em Maceió começou.

A luta continua contra todos os governos. Construir o 30 de agosto pela base!

No calor das manifestações de junho se fez presente um sentimento de rechaço aos partidos e a outras formas de organização, como sindicatos e centrais sindicais. Neste contexto, pequenos grupelhos fascistas, muitos dos quais pagos pela direita tradicional, tentaram “surfar” no legítimo sentimento de revolta contra a farsa do regime democrático e seus partidos. Aproveitaram, então, para atacar fisicamente todos àqueles que portassem alguma bandeira de organização, incluindo a dos partidos de esquerda. Naquele momento, toda a esquerda precisou cerrar fileiras em defesa do direito de organização e expressão.

Mas a repulsa a todos os partidos, incluindo os que se mantiveram na oposição de esquerda aos Governos do PT, proveio da desilusão justa contra os partidos como o PT e o PCdoB. Estender esse sentimento para os partidos que se mantiveram na oposição de esquerda é uma generalização equivocada, mas compreensível. Afinal, o PT subiu ao poder carregando uma história de luta junto à classe trabalhadora, porém manteve, em essência, a mesma política econômica do PSDB. E se igualou à direita tradicional até na corrupção. O PCdoB o seguiu como fiel aliado. Para desfazer a confusão é necessário continuar debatendo pacientemente e disputando nas ruas nossas diferenças.

As lutas abertas a partir de junho têm se chocado objetivamente contra todos os governos, apesar dos esforços dos setores governistas para salvarem ao menos o governo Dilma. Nos atos do 11 de julho esses setores (PT, PCdoB, CUT, MST, e outros) tentaram canalizar os protestos para defesa da pauta do Governo Petista, ou seja, da reforma política e do plebiscito então propostos por Dilma. Não conseguiram. Os setores que nunca se entregaram ao governismo não permitiram. Esses fizeram que as reivindicações que haviam sido definidas pelo movimento, de conteúdo bastante progressista, falassem mais alto.

Em Maceió, o ato do dia 11 de julho, que saiu da Praça Centenário, expressou claramente essa disputa. Em contraposição a coluna das Centrais atreladas ao Governo Federal, um grande bloco formado por diversos setores organizados e independentes fez a diferença. O bloco antigovernista, além da animação, caracterizou-se por entoar palavras de ordem voltadas não somente para o Governo Téo Vilela e do Rui Palmeira (ambos do PSDB), mas também ao Governo Federal de Dilma Rousseff (PT). Esse bloco, em suma, disputou nas ruas (assim como foi feito no ato de fechamento do Porto, por exemplo) o caráter da passeata.

Agora, o mesmo desafio é posto para construção do dia 30 de agosto. O dia 30 de agosto poderá ser mais um dia histórico de paralisação dos trabalhadores. Mas, para tanto, temos dois desafios. O primeiro é construí-lo pela base dos trabalhadores, convocando-os diretamente, debatendo com cada trabalhador as pautas que estão colocadas e a necessidade de aderir à paralisação.

O segundo desafio é formar desde já a unidade da esquerda antigovernista para disputa política do 30/08. Fazemos unidade de ação com a CUT e as demais centrais governistas em torno da pauta da convocação do dia 30/08 porque é preciso mobilizar os trabalhadores, levá-los a luta. Mas esses setores, capitaneados pelo PT, CUT e MST, irão tentar esvaziar o conteúdo político dos atos. Eles só aceitaram a convocação do dia 30/08 (assim como do dia 11/07) porque foram pressionados a tanto, porém não podemos descartar que tentem, inclusive, alguma manobra para abortar a convocação. Se não conseguirem, irão tentar canalizar para defesa do Governo. Cabe a esquerda antigovernista não permitir.

Acreditamos ser fundamental fortalecer o 30/08 dentre da perspectiva dos trabalhadores, independente de todos os governos. Neste sentido, fazemos um chamado para o PSOL, o PCB, o Espaço Socialista, o CAZP, a CSP-Conlutas, a Frente pelo Passe Livre em Maceió, os Sindicatos, os Movimentos de Luta pela Terra, os Movimentos de Luta por Moradia, a Resistência Popular, o Fórum em Defesa do SUS e Contra a Privatização, o Comitê da Auditoria Cidadã da Dívida, a ANEL, os DCE´s e CA´s, o Grupo Além do Mito e todos aqueles que estão no campo da esquerda antigovernista para construirmos uma Plenária Aberta deste campo para organizarmos um grande bloco para os atos do dia 30 de Agosto.
               
Somos todos Santa Lúcia!

O dia 30/08 foi convocado com uma pauta que expressa diversas demandas da classe trabalhadora brasileira. Trata-se de uma pauta progressista, embora ainda ressinta-se de bandeiras que enfrentem mais diretamente o atual modelo econômico. Para fazermos um embate frontal a política econômica do Governo Dilma é necessário incorporarmos bandeiras como: o não pagamento da dívida externa e interna aos banqueiros e especuladores; contra as privatizações do patrimônio e dos serviços públicos, pelo congelamento dos preços dos alimentos e tarifas públicas, pelo aumento geral dos salários; entre outras.

Além das pautas gerais, é preciso incorporar questões locais. Neste contexto, a luta dos trabalhadores sem-teto que foram expulsos do terreno na Santa Lúcia assume grande importância. O déficit de habitações em Maceió é abissal: metade das famílias não tem moradia digna.  Trata-se, portanto, de uma das principais demandas para a classe trabalhadora local. E com a luta da Santa Lúcia, essa necessidade assumiu forte repercussão política. Portanto, acreditamos que devemos assumir essa pauta como a principal bandeira local da construção do dia 30 de agosto.



Nenhum comentário:

Postar um comentário