Rolezinho também é luta de classes

Por Wibsson Ribeiro 

2014 começou com uma forma de mobilização no mínimo inusitada. Os rolezinhos já tomaram conta das rodas de conversa de todo o país: é uma forma de protesto? É pura arruaça? Do que se trata esta onda de jovens da periferia tomando conta dos shopping center’s de todo país? As maiores revistas do país, Istoé, Época, Veja, e também os grandes jornais já estamparam em suas capas e matérias centrais os protagonistas dos rolezinhos e tentam a seu modo interpretar os fatos. Está colocada a primeira grande polêmica política de 2014.

Para além do consumo

"A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte" – Comida, Titãs

Jovens da periferia, ou das chamadas classe C e D, como gostam de chamar o governo e os analistas da direita, tomam conta dos shopping center’s, dos templos de consumo do capitalismo. E qual a primeira impressão que vem a tona diante deste fato? A de que são jovens meramente buscando diversão e, óbvio, consumo. Consumir as mercadorias das vitrines, jogar algo, comer um lanche, tomar um sorvete ou até comprar um smartphone, uma roupa que chame a atenção, um game. Mas é só isso? Parece que não.

Os rolezinhos não são somente eventos onde os jovens, em sua maioria negros e pobres, vão afirmar o seu direito de consumir. Com a proibição da entrada de um tipo particular de jovem, caracterizado pela cor da pele e suas roupas, se iniciou o debate pela afirmação de uma cultura, de orgulho e resistência. Os jovens negros e negras começaram um debate que, ao menos inconscientemente, confronta o capitalismo e suas perversões. Não atentar para estes fatos é deixar passar um momento político importante que atravessa nossa juventude.

Os rolezinhos são parte das manifestações mundiais de juventude

A juventude egípcia inaugurou ao mundo novas formas de protestar. Combinadas com as tradicionais mobilizações de rua, as novas tecnologias se tornaram uma importante ferramenta para a luta contra os governos e regimes. A juventude chamando os atos via facebook no Egito e derrubando Mubarak, organizando-se na Praça Tahrir mostrou ao mundo que uma nova juventude despertava para a luta política e que promete não deixar pedra sobre pedra do capitalismo. Em que pese os limites organizativos dos novos movimentos europeus e norte americanos, como Occupy, 15M, Geração à Rasca, dentre outros, todos guardam em comum a positiva característica de serem protagonizados por uma juventude radical e disposta a transformar o mundo.

O Brasil foi atingido em cheio por estas inspirações de luta e insatisfação com o mundo proporcionado pelo capitalismo. Em 2013 esta explosão se escancarou passando completamente por fora das velhas burocracias: nem a Une, nem a Cut e muito menos o PT foram capazes de frear a explosão de indignação que contagiou o país de norte a sul. O mesmo sentimento de mudança que move os jovens egípcios, sírios e europeus, move os jovens brasileiros. A reação à proibição dos rolezinhos é também uma expressão desse novo momento político mundial.

Os jovens da periferia não estão mais aceitando simplesmente a ordem de proibição e se organizam para adentrar aos shopping’s. Eles percebem que suas roupas e seu estilo de caminhar, cantar e se divertir incomodam a classe média elitista e a provoca andando em multidões pelos apertados corredores dos shoppings. Não podemos ser conservadores: é a juventude negra e pobre de nosso país, com as ferramentas de que dispõe em mãos, de maneira espontânea e imediata, enfrentando aquilo que a julga e a limita diariamente. É uma juventude que quer mais que comida, roupas caras e consumo; é uma juventude que quer seu direito a cidade, ao lazer.

O Governo Dilma não será capaz de dar a juventude brasileira aquilo que ela necessita

Muitos ativistas e partidários do PT e do PCdoB estão nas redes sociais e nas ruas alegando junto conosco que os rolezinhos são uma forma legítima de protesto. Porém, a raiz desse protesto se encontra, em nossa opinião, em uma visão completamente diferente da que os partidos governistas atribuem. Para os defensores do governo Dilma, os rolezinhos seriam a consequência do surgimento da nova classe média, da ascensão econômica de diversos jovens da periferia que agora estão exigindo a sua "fatia do bolo", exigindo consumir e se integrar à economia como consumidores que são.

Isto é falso. Não existe uma nova classe média no Brasil. O governo utiliza uma definição de classe média em que famílias que vivem com renda per capita de R$ 291 à R$1.164 seriam classe média. Viver com R$291 por mês nunca foi ser de classe média. Esta manipulação de dados utilizada pelo governo do PT é só uma máscara para ocultar o verdadeiro Brasil, um país ainda extremamente desigual. Outra falsificação grosseira feita pelo governo diz respeito aos dados para quantificar a pobreza no Brasil. O governo do PT alega que está acabando com a pobreza no Brasil e que teria retirado mais de 22 milhões da extrema pobreza. Porém, utiliza os mesmos mecanismos que o FMI e o Banco Mundial para qualificar o que seria pobreza extrema. Segundo o governo, as famílias que recebem até R$70 por pessoa ao mês estão na pobreza extrema, e são pobres as famílias que recebem de R$70 até R$140 por pessoa. Esses dados são manipulados: muda-se o rótulo, mas todos nós sabemos que uma família que vive com renda de R$70 por pessoa ao mês tendo que arcar com os pesados custos do transporte, saúde e alimentação em nosso país vive em condições muito difíceis.

O que o governo do PT fez de fato foi aumentar o limite de crédito das famílias. Provocando um salto no consumo em nosso país. Porém, esta é uma medida claramente artificial e que já começa a cobrar seu preço, com mais da metade das famílias brasileiras endividadas segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas). Além disso, houve um aumento nos empregos de fato, mas nos postos de trabalho mais precarizados, com carteira assinada de até 1,5 salários mínimos no máximo, a maioria deles no setor de serviços. Enquanto os trabalhadores da indústria e outras categorias sofrem mais e mais precarização e flexibilização nos seus direitos trabalhistas.

O Brasil construído pelo PT é um Brasil com as mesmas desigualdades e problemas enfrentados pela população há décadas. As maquiagens não são capazes de esconder a verdade. Os jovens que pensavam estar em outro país ao serem barrados à porta dos shoppings se veem no mesmo país elitista, racista e segregacionista de sempre. As famílias endividadas percebem que não há enriquecimento em vista. Os jovens dos rolézinhos só terão melhorias nas suas condições de vida e acesso aquilo que desejam e necessitam se organizando e se mobilizando. Não será o PT e seu governo quem libertará a classe trabalhadora brasileira dos diversos problemas que a afetam.

Aumentar o limite de crédito da classe trabalhadora não suprime a luta de classes. As verdadeiras barreiras só serão derrubadas com mobilização.

Contra o racismo e o conservantismo

Os rolezinhos são ao mesmo tempo um violento tapa na cara do forte racismo e do conservadorismo presentes em país. Além disso, são uma forma original e criativa de protesto social. Se estes rolezinhos se combinarem com as organizações de esquerda e de juventude, teremos uma ferramenta poderosíssima capaz de estremecer os governos e o capitalismo brasileiro. Todos os governantes sabem disso. Dilma rapidamente demonstrou interesse nas manifestações e foi seguida por Haddad e até mesmo Geraldo Alckmin, governador tucano do estado de São Paulo, que hipocritamente chegou a declarar que fazia rolezinhos quando era jovem.

A mídia também sabe disso. Por isso, de um primeiro momento de ataques aos rolezinhos como baderna e depredação passou a um discurso conciliador e de abraço aos jovens da periferia, tentando mostrar os organizadores do evento como jovens interessados apenas em consumir nos shoppings, tentando ao máximo combater qualquer visão política e aproximação desses jovens com ideias de esquerda. Mas ainda que muitos de seus organizadores não tenham de fato nenhuma intenção política consciente com a organização dos eventos em shopping center’s, o que é muito normal, não é possível pela mídia ocultar o que foi escancarado pelos protestos: o quão conservador e excludente é nosso país e o quão truculenta é a Polícia Militar, instituição que deve acabar por ser um autoritário e retrógrado resquício da ditadura.

Com isso, também não é possível ocultar que os rolezinhos estão se enfrentando com estes aspectos do capitalismo que afetam diretamente a juventude, e que estes enfrentamentos podem evoluir para lutas políticas muito maiores. Esta possibilidade é real e assusta os governos e a mídia. Os rolezinhos escancaram a luta de classes, entre jovens marginalizados de um lado e os governos e mídia de outro temendo novas manifestações radicalizadas. Através dos rolezinhos se iniciou o intenso ano de disputas políticas que será 2014, seu desfecho será definido nas ruas.

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