A queda do moinho e a tranquilidade do Motrisa

Paulo Roberto

Na última segunda-feira (7), um das torres da empresa Moinhos de Trigo Indígena S/A (Moinho Motrisa), localizado no bairro do Poço, em Maceió, explodiu e parte da estrutura de concreto desabou. A queda espalhou uma grande quantidade de trigos e deixou 04 pessoas feridas, uma delas em estado grave.

O “acidente” levou a muitas comparações com a explosão da sede da Divisão Especial de Investigação e Capturas (DEIC), em dezembro de 2012, que vitimou uma policial civil. A sede era localizada em pleno bairro residencial, Farol, abrigava incontáveis quilos de explosivos, armamentos e munição e explodiu cerca de 60 kg deste material, a explosão escancarou, mais uma vez, o descaso do governo Teo Vilela (PSDB) com a segurança pública do estado de Alagoas.

O desabamento do silo do Moinho Motrisa, assim como a explosão da Deic, mostra o descaso dos governos com as cidades e a questão do planejamento urbano. Nos dois casos existe uma lógica que é a de favorecer os capitalistas em detrimento da segurança dos trabalhadores e da população. Fábricas, indústrias e até deposito de armas em áreas comerciais e residenciais não seriam problema, desde que assegurem o lucro dos empresários e que o governo economize com os gastos sociais, nesse caso a segurança.


Um moinho para tragar homens e fazer dinheiro

O desabamento deixou as placas de concreto pendentes. A Defesa Civil isolou toda área comercial e as vias, das casas e dos pontos comerciais. Mas menos de 24 horas após a explosão, o moinho voltou a funcionar, segundo diversos relatos na imprensa. E apenas na quarta-feira (09), após visita do Ministério do Trabalho é que foi decretada a interdição total.

Além disso, diversos moradores relataram que há muito tempo o prédio apresentava rachaduras e falta de manutenção. Contudo, a coordenadoria de Defesa Civil afirmou que não havia registro de nenhum tipo de problema com a estrutura do prédio. A prefeitura de Maceió precisa comprovar que a Defesa Civil fazia a averiguação e fiscalização do prédio e que a estrutura não apresentava perigo.

O acidente mostra que as empresas não têm muito com que se preocupar. Mesmo nos episódios de grande comoção, o capitalismo tenta se aproveitar. A direção do moinho não está preocupada se pode ocorrer novo acidente, mas apenas quanto ela irá deixar de lucrar pelos dias parados. É a tranquilidade do rodamoinho.

A vida dos trabalhadores e trabalhadoras dos moinhos corre risco, é inaceitável que eles sejam obrigados a colocar em risco suas vidas para que o moinho continue a rodar.

Um Plano Diretor para os ricos e as grandes empresas

Para que uma empresa seja implantada na cidade, ela deveria seguir o Plano Diretor, que orienta o crescimento e o funcionamento do município.

O Estatuto das Cidades, criado em 2001, definiu o Plano Diretor (PD) como instrumento básico para orientar a política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana do município. O PD é elaborado pela Câmara Municipal e deve ter como princípio básico a participação o planejamento participativo e a participação popular. O PD contém um projeto de cidade, e também o futuro de cidade que será construída.

O Plano Diretor de Maceió foi elaborado em 2005, ainda na prefeitura de Cícero Almeida, e passa por processo de revisão, deve ser revisado a cada 10 anos. A câmara Municipal de Maceió e o prefeito Rui Palmeira (PSDB), desde 2013, criou um grupo de trabalho com parlamentares e representantes da sociedade para discutir debater as diretrizes e a nova revisão do PD de Maceió.

Contudo, já podemos esperar que as novas diretrizes do PD de Maceió não substituam em nada as anteriores. Desde a década de 1990 é indicado que as indústrias devem ocupar lugares isolados, ou mesmo serem abrigadas em um parque industrial e que as regiões de grandes aglomerações sejam usadas para comercio e residência. Mas a discussão, guiada pelo presidente da Câmara Municipal Francisco Holanda Filho (PP), não questiona o porquê de ainda termos nas regiões de residência um número grande e perigoso de indústrias.

O PD de Maceió vai ao inverso. Quem dá as cartas no plano diretor são os riscos e as grandes empresas, que financiam as campanhas dos grandes partidos. As cidades passam a ter a cara que interessa a estes grupos.

As regiões que deveriam ser destinadas para as industriais são ocupadas pelos projetos de moradia. Exemplo é o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) para a população de menor renda. Como forma de garantir o máximo de lucro as empresas escolhem locais em que os valores dos terrenos sejam baixos e assim possam maximizar os seus lucros, ou seja, a operação será tanto mais rentável quanto mais baixo for o custo do terreno.

Geralmente os locais escolhidos são nas partes mais afastadas da cidade que em geral, são longe das áreas centrais das cidades, das ofertas de emprego e dos serviços e equipamentos públicos. Isso explica o porquê dos novos conjuntos passarem por sérios problemas de mobilidade urbana e viverem em pleno caos urbano, como é o caso dos novos conjuntos no Benedito Bentes e em toda a região do Tabuleiro.

Aos trabalhadores e à população mais pobre é negado o direito à cidade. Enquanto centenas de prédios e terrenos na orla e no Centro estão abandonados ou vazios ajudando a especulação imobiliária, os trabalhadores são obrigados a morar distantes dos seus locais de trabalho e de lazer. É normal em toda Maceió vermos empresas como a Braskem, Sococo e o Moinho Motrisa em áreas densamente populosas, e ainda contando com apoio e benefícios fiscais do governo e da prefeitura.

Após as grandes tragédias, Moinho Motrisa e DEIC, veremos mais uma vez os vereadores em seus moinhos de vento discutirem a necessidade de mudanças no PD de Maceió. Mas mudasse tudo para continuar da mesma forma. Um Plano Diretor para os ricos e as grandes empresas mandarem na cidade.

Por uma cidade para os trabalhadores

Nós do PSTU defendemos um Plano Diretor que garanta uma vida saudável para as próximas gerações e que beneficie os trabalhadores e a população pobre. É necessário que o plano preveja cláusulas em que os ricos paguem a conta pelos prejuízos e danos que tenham causado ou venham a causar à cidade e ao meio ambiente, como no caso do Moinho Motrisa.

A revisão do PD de Maceió deve englobar transporte, planejamento da mobilidade urbana, construção de ruas e avenidas, modelo de transporte de massa etc, para gerar qualidade de vida na cidade. E não aplicar a política de “higienização social” que expulsa os pobres dos centros urbanos, deixando-os sem acesso ao trabalho e confinados na periferia.

Além disso é preciso garantir que a cidade seja ocupada pelos trabalhadores, para tanto é preciso que o transporte público seja estatizado, com a diminuição da tarifa imediatamente e a instituição de passe-livre para estudantes e desempregados.

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