A explosão das periferias

Wibsson Ribeiro
Desde 2013 o país é tomado por manifestações de todas as partes. Começou com os jovens, mas a vontade de lutar já contaminou toda a população. As periferias das grandes cidades, os locais onde são maiores as contradições e injustiças, simplesmente explodiram em uma onda de indignação e radicalidade. Parece que nem os governos nem mesmo a polícia são mais capazes de conter a revolta popular.
A explosão das periferias
O Governo Dilma construiu, através de muito investimento em propaganda, um Brasil dos sonhos: um país em que todos os brasileiros começam a ter acesso a eletrodomésticos e outras vantagens que outrora não possuíam. Um Brasil com fartura à mesa, com pleno emprego. Um Brasil tão eficiente e bom para se morar que seria até mesmo capaz de sediar mega eventos. Uma pena, mas o Brasil dos sonhos construído pelos publicitários petistas não passa de uma ilusão.
Os trabalhadores de fato, através de um maior acesso a empréstimos, consomem mais. Existem mais empregos. Mas são empregos em sua maioria precarizados, cujos salários são corroídos pela inflação e a cada dia se tornam mais distantes de garantir bem estar para as famílias. Aumenta o preço da cesta básica e a inflação novamente começa a dar as caras. Quem mais sofre com tudo isto são os moradores das periferias de nosso país. Lugares aonde o saneamento básico não chega, onde faltam escolas, onde os postos de saúde não são suficientes, onde os conjuntos habitacionais são construídos de qualquer forma, apenas para gerar lucro às empreiteiras, e onde o transporte público é ainda pior do que nas principais avenidas e centros das grandes cidades.
As periferias de nosso país são um barril de pólvora, e o pavio já está aceso. Antes, a polícia entrava e matava impunemente os jovens das periferias. Agora, isto não acontece sem que ocorram manifestações, sem que  vias sejam interditadas e ônibus sejam queimados. As habituais faltas de distribuição de água agora são retribuídas com protestos, pneus queimados nas ruas e gritos de indignação. Os trabalhadores mais humildes perderam a paciência e estão em movimento, não aguentam mais o descaso dos governos.
A quem pertence a Cidade de Maceió?
Esta onda de indignação que tomou as periferias de todo o país também atinge fortemente a capital dos piores indicadores sociais do país, Maceió. Não se passa mais de quinze dias sem que aconteçam protestos na Vila Brejal, uma das regiões mais pobres e sofridas de nossa cidade. Os moradores dão exemplos de luta e resistência.
Maceió está entre as 10 piores cidades no que diz respeito ao saneamento básico. Em uma pesquisa de 2013, feita pelo instituto Trata Brasil, que relacionava os casos de diarreia à falta de saneamento, Maceió apareceu com   300 casos de internação por 100 mil habitantes. Mais uma estatística vergonhosa, fruto da falta de investimento público em saneamento básico. É dessa forma que vive a periferia de Maceió, sem as mínimas condições para ter uma vida digna.
Enquanto isso, a prefeitura de Rui Palmeira (PSDB) maquia a cidade: constrói vias de acesso, túneis e realiza obras que geram mais dúvidas do que conforto para a população. O litoral norte está se tornando o novo reduto dos ricos de Maceió. Um shopping de luxo foi construído no bairro de Cruz das Almas e a cidade toda começa a se remodelar em torno de um projeto urbano que aprofunda as contradições em que já vive a cidade. Onde condomínios para os ricos são montados em um cenário de praias paradisíacas, shoppings e muito conforto. Enquanto que os pobres são jogados cada vez mais longe e submetidos as mais duras condições de vida.

Terminal de ônibus do Benedito Bentes
A situação mais recente foi a protagonizada no dia 19 de maio (segunda), no bairro do Benedito Bentes. Moradores do conjunto José Aprígio Vilela, novo condomínio recém-construído, praticamente no final do enorme bairro do Benedito Bentes, protestaram por falta de ônibus. Os moradores tem que chegar muitas vezes três horas antes da saída normal do ônibus e torcer para que o ônibus passe. Quando isso não ocorre, tem que caminhar quilômetros atravessando muita lama, carregando peso, crianças e se submetendo a muita humilhação para chegar aos locais de estudo e trabalho. Isto porque segundo as famílias que moram no conjunto apenas um ônibus circula no local, que conta com mais de mil moradores.  Este é o resultado prático dos planos de urbanização dos governos, voltados apenas para o lucro das empreiteiras e depositando pessoas sem se preocupar com o bem estar das pessoas.
A máscara do prefeito Rui Palmeira começa a cair. Sua preocupação com os pobres de Maceió não passou de fachada. As famílias mais humildes estão sendo jogadas nos cantos mais distantes da cidade sem a garantia de seus direitos mais básicos enquanto o litoral norte e outros bairros da cidade se tornam verdadeiros condomínios de luxo loteados por empresários e imobiliárias. Tudo isto combinado aos planos do governo federal (PT), também orientado pela lógica de dar mais lucros aos empresários e empreiteiras financiadoras das grandes campanhas eleitorais.
É justa a indignação
A manifestação do dia 19 foi consequência da humilhação e do sofrimento a que os moradores do conjunto José Aprígio Vilela estão submetidos. Autoridades como o vereador Silvânio Barbosa (PSB) foram questionadas pela população, bem como a Prefeitura. A empresa de ônibus Piedade teve vários de seus ônibus depredados no local. Alguns falam em 10 ônibus, mas a empresa chegou a falar na danificação de mais de 35 veículos. Não se trata de uma ação de pessoas má intencionadas.
Foram trabalhadores, pais e mães de família, donas de casa e moradores indignados que não confiam mais nas autoridades e muito menos nas empresas de transporte e exigem uma solução urgente. Enquanto isso, as autoridades lavam as mãos e passam a responsabilidade adiante: Silvânio Barbosa diz que a responsabilidade é da Prefeitura, a Prefeitura diz que a responsabilidade maior é da empresa e a empresa diz que o problema está no baixo valor das tarifas que vem gerando prejuízos, uma verdadeira piada!
 
Bope foi acionado para reprimir os manifestantes
Mostrando a sua verdadeira face, a prefeitura e os empresários acionaram o Bope, que reprimiu violentamente os manifestantes, disparando balas de borracha em crianças, mulheres e idosos. Infelizmente, as necessidades dos trabalhadores ainda seguem sendo tratadas como caso de polícia em nosso  país.
Os trabalhadores do Benedito Bentes seguem o caminho correto da mobilização. A luta pelo direito à cidade vem ganhando contornos cada vez mais dramáticos. É preciso voltarmos às ruas e exigirmos dos governos mais investimentos em saneamento básico, moradia e transporte público. A CSP-Conlutas e várias outras entidades construirão no próximo dia 12 de junho, um grande ato contra as injustiças da Copa do Mundo. É preciso também lutar pela desmilitarização da Polícia Militar! É inaceitável continuar existindo um aparato repressor como a PM que é inimiga da população e apenas serve para conter a insatisfação do povo e manter o domínio destes políticos e empresários que não se importam com as necessidades reais dos trabalhadores.  
Todos ao 12 de junho!

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