Policiais torturam jovem e o mandam pedir “perdão” em programa de TV

Klebson Porfírio
Yuri Brandão

Há alguns dias circula pelo país, principalmente através das redes sociais, um vídeo onde um jovem alagoano, negro e morador da periferia é espancado por policiais militares. O motivo? Possuir uma tatuagem de palhaço nas costas – segundo a cartilha policial, a tatuagem significa que o indivíduo matou ou participou da morte de policiais.

No entanto, se a tortura é ilegal e deplorável, a situação em questão nos causa ainda mais repulsa por conta do jovem não ter cometido crime algum e, segundo ele mesmo, não ter passagem pela polícia. Apanhou por possuir uma tatuagem que desagrada policiais.

No ápice do vídeo, um dos policiais obriga o jovem a repetir: “Sikêra, eu tô arrependido dessa tatuagem, vou pedir perdão na TV Alagoas hoje; o senhor me concede um tempinho? Que esse desenho é de Zé ruela...”. Segundos depois, assustado, o garoto pergunta “ôxe doutor, o senhor vai mostrar isso pra todo mundo?” em seguida o policial agride-o novamente e dá uma gargalhada.

Sikêra Júnior e seus congêneres também são cúmplices

Sikêra Júnior é apresentador de um programa policial chamado “Plantão Alagoas”, da TV Alagoas, filial do SBT no estado. Transmitido de segunda a sexta-feira, o programa é um dos líderes de audiência na programação local, principalmente entre as camadas mais pobres da população. Durante sua exibição, o apresentador frequentemente escarra preconceitos racistas e de classe, repete frases de efeito como “bandido bom é bandido morto”, “mais vale uma viúva que um bandido”, “esse tem que enterrar de cabeça pra baixo” e outras. É com esse ódio que Sikêra “apresenta” os problemas sociais de nosso estado, sua voz é nada mais que reflexo da opinião da burguesia oligárquica que controla a economia, a política e também, infelizmente, o judiciário alagoano.

A gravação da tortura e a certeza da impunidade são mais uma prova de que a ideologia racista destilada por programas como o de Sikera Júnior é nociva principalmente para a população mais pobre, que é vítima e ao mesmo tempo espectadora das cenas bárbaras de violência mostradas diariamente. Os responsáveis por tais programas de TV são cúmplices da tortura do jovem, usam de um meio de comunicação com concessão pública para fazer apologia à violência, incitação ao ódio e desrespeito aos direitos humanos.

Chega de Sikeras, Sheherazades, Morais, Datenas, Resendes...

A televisão é um poderoso meio de comunicação de massa e nenhuma informação passada é imparcial, contém uma visão de mundo e tende a influenciar a opinião e a ação coletiva. Numa sociedade dividida em classes sociais, onde a grande maioria da população é explorada para enriquecer uma minoria, os monopólios de comunicação têm servido como apêndice dos interesses da classe capitalista, fomentando a visão de mundo – e o consumo – que se deseja por parte dos explorados e oprimidos.

Recentemente outro jovem negro e morador de periferia, dançarino do programa “Esquenta” da Rede Globo, foi morto por policiais de uma UPP na comunidade de Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro; a Globo divulgou que ele morreu em “meio a guerra” da polícia contra o tráfico, porém, a mãe do dançarino e vários moradores acusavam os policiais de tentar sumir com o corpo, afirmando que o rapaz foi morto com um tiro após uma sessão de tortura, assim como aconteceu com o pedreiro Amarildo de Souza. Protestos foram organizados por moradores da comunidade e mais uma vez boa parte das emissoras distorceram e manipularam as informações, dizendo que os protestos eram incitados por traficantes.

Gostaríamos de ver esses programas de TV cobrando a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, exigindo mais verbas para educação, saúde, transporte e moradia, apoiando os profissionais que são obrigados a interromper suas atividades por conta das péssimas condições dos serviços públicos em Alagoas, inclusive das próprias delegacias e do sistema prisional – que não ressocializam ninguém e só produzem mais especialistas em crimes.

Pela democratização dos meios de comunicação!
Cassação dos direitos de transmissão dos que incitam a violência e o ódio!
Chega de racismo!

Não ao genocídio da juventude negra! Desmilitarização da polícia já! 

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