"Na Marcha da Periferia, nós reinventamos o espírito dos quilombos"




GEYSSON SANTOS

‘‘Organização, para nós, sempre foi caso de vida ou morte. Na Marcha da Periferia, nós reinventamos o espírito dos quilombos. E, esse ano, marcharemos em um quilombo, um quilombo chamado Jacintinho.’’


Geysson Santos é militante do PSTU AL e membro da nossa Secretaria de Negros e Negras. Participa do movimento cultural Hip Hop e é um dos organizadores da 4ª Marcha da Periferia de Alagoas. Leia a entrevista que fizemos com ele.

Opinião: Vinte de novembro foi o Dia da Consciência Negra. Qual o significado e o peso político desta data?

Geysson Santos: Acho que a maior representação que carrega o mês de novembro é que, de fato, podemos reescrever nossa história. Por muito tempo, tentaram nos omitir, e, esconder quem realmente somos nós. Nunca nossa história foi contada. Até um tempo atrás, eu nem sabia que existiam intelectuais negros, imagina saber que foi um ''negão'' que deu a vida pra nos libertar.

A gente cresce ouvindo falar muito em princesa Isabel, em abolição da escravatura... Mas agora a gente sabe como conseguimos avançar rumo à vitória, né?

Se hoje nos organizamos nas periferias, ontem nos organizávamos nos quilombos. Tínhamos e temos muitas Dandaras e muitos Zumbis.

O dia da consciência negra consolida nossa consciência, que avança! Pode ser que seja em passos lentos, mas avançamos. E erguemos nossas bandeiras, em nome de todos nossos irmãos e irmãs que deram suas vidas para hoje podermos dizer que não, maio não é o mês do negro. 



Opinião: De que forma o racismo se manifesta no Brasil?

Geysson Santos: Velho, o racismo no Brasil é sacana. Ele se veste de democracia racial e nos faz questionar se realmente existe negro ou branco no Brasil. Acho que o momento em que passei a sentir mais dor, foi quando me vi negro. Foi quando achei uma explicação pra todo tratamento diferenciado com o que eu convivia. Isso é difícil, sabe? Porque, a partir daquele momento, passei a sentir não apenas a minha dor, passei a carregar o peso de ver meus irmãos e irmãs sendo, sempre, a base da pirâmide de qualquer setor de trabalho, e, pior, na maioria das vezes sem nem se dar conta disso.

Acredito que se a gente não enxergar o problema do racismo no Brasil como um problema de classe também, vamos estar andando em círculo e não vamos chegar a lugar nenhum. Enquanto tratamos o racismo como assunto secundário, mais um jovem tá sendo morto entre becos e vielas do nosso país. Se parar pra ver direitinho, todas as nossas pautas são polêmicas. Sabe por quê? Porque são as pautas que assustam quem tá acostumado a massacrar a gente. São essas pessoas que nos massacram, que custeiam ONGs que dizem falar em nosso nome, mas se omitem nas polêmicas no que tange a nossa realidade.

Se tem uma coisa que a vida ensina é que a rua cobra. Os pretos já sabem quem são os nossos e quem são os deles.

‘‘No fim das contas, nós somos 
nossa própria esperança. Se 
não nos organizarmos, vamos 
deixar nosso futuro pra quem?’’

Opinião: Dia 28 de novembro ocorrerá a 4° Marcha da Periferia. O que representa essa marcha e o que se pretende com ela? 

Geysson Santos: A marcha da periferia, nacionalmente, surgiu com um caráter diferente das marchas tradicionais. Ela surgiu através do Movimento de Hip Hop Quilombo Urbano, do Maranhão, se propondo como uma alternativa em relação aos eventos do Dia da Consciência Negra, organizados pelo governo, ou seja, foi de nós pra nós mesmo.

Aqui, em Alagoas, estamos avançando para a 4ª Marcha e, em todas, foi impulsionada por coletivos do Estado. Acho que isso é um diferencial nessa construção, afinal, estamos diariamente nas quebradas, fazendo nossa movimentação político-cultural e, agora, temos a oportunidade de fazer um debate político muito mais avançado para dentro de nossas casas.

Acredito que, desde a primeira marcha até essa, os resultados – principalmente dentro do movimento – são evidentes. Hoje, a galera que já teve oportunidade de construir de alguma forma a marcha vem com um discurso muito mais forte na relação entre raça e classe, e reinventou o espírito da nossa autoafirmação.

O que pretendemos com a marcha é que, de fato, possamos levantar as nossas pautas e dizer o que precisamos. No fim das contas, nós somos nossa própria esperança. Se não nos organizarmos, vamos deixar nosso futuro pra quem? Pro Eduardo Cunha? Pra Bancada da Bala? Pro Congresso mais conservador pós Constituição? Desde os Quilombos, nós sabemos como nos organizar. Organização, para nós, sempre foi caso de vida ou morte. Por isso, na Marcha da Periferia, nós reinventamos o espírito dos quilombos. E esse ano, marcharemos em um quilombo, um quilombo chamado Jacintinho.


Opinião: Qual o significado político e cultural de se estar e fazer movimento na periferia?

Geysson Santos: Acima de político e cultural, ser da periferia envolve sentimento. Aqui, aprendemos a pensar coletivamente, aprendemos a ter respeito, aqui é uma escola. No meu caso, foi uma escola que me ensinou a ser quem sou. Por isso, não demorou muito para me engajar no Hip Hop e começar a ter meus primeiros contatos com o movimento cultural.

A gente sempre sabe e soube do que precisamos, só que não confiamos em quem supostamente podemos confiar, saca? Por isso, às vezes ficamos tão afastados politicamente. Mas como diz o Gíria Vermelha: “A Arte pela arte, pra nós é surda e muda”. E foi isso que o movimento me ensinou.

O Hip Hop me engajou politicamente, me deu oportunidade de ser um aluno de Ciências Sociais, apurou meu senso crítico, e hoje é isso que tento levar nos movimentos que construo em conjunto com o coletivo Cia Hip Hop.

Vivemos em um dos estados mais violentos do Brasil, o Estado só olha pra cá se for pra mandar policiamento... Temos que nos virar em dobro pra fazer acontecer qualquer coisa por aqui.

Acho que não tem palavra que defina melhor o significado político e cultural de fazer movimento periférico do que o sentimento. O sentimento pelo povo, pela cultura, pela resistência, pela nossa história. Acho que isso me resume.


‘‘Vivemos em um dos estados 
mais violentos do Brasil, o 
Estado só olha pra cá, se for 
pra mandar policiamento...’’


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